O que somos?

Perdido em pensamentos sobre o atual momento brasileiro, lembrei-me de um belo texto escrito pelo mestre Celso Furtado em 1984, em ocasião do I Encontro Nacional de Política Cultural. Intitulado “Que somos?”, Furtado tece algumas críticas a forma de desenvolvimento imitativo adotada pelo Brasil, que “reforçou tendências atávicas de nossa sociedade ao elitismo e à opressão social”, criando ainda “formas mais sutis e insidiosas de dependência”. Claro que Furtado escreve tais palavras com olhos para os efeitos na construção cultural de um país, porém podemos tomar emprestado tal pensamento para uma aplicação na atual realidade brasileira.

Quando o PT assumiu o poder, o Brasil estava em meio a uma crise econômica, e em processo de ajuste (como agora), e foi levado a presidência justamente para pôr fim às mazelas do povo brasileiro, que estavam se sentindo jogados a margem da sociedade e sem voz ativa junto aos que decidiam os rumos do país. Sendo assim o PT foi levado ao poder para revolucionar, porém chegando lá ele buscou reformar. Manteve-se políticas ortodoxas visando estabilidade econômica, e então lançou o principal programa do governo, que atacava diretamente a miséria e a fome extrema no país. O Bolsa Família foi o grande programa à esquerda do governo, porém sozinho é insuficiente. O PT conseguiu a ascensão social de parte significativa da sociedade, porém não buscou fazer isso mexendo nos estratos mais elevados da sociedade, e muito menos buscou aplicar amplas reformas econômicas para o país, que visassem a manutenção do crescimento econômico e da ascensão social.

Sendo assim o PT aliviou a opressão social, mas não acabou com as tendências atávicas ao elitismo da sociedade brasileira. E ainda não implementou políticas e reformas que visassem a manutenção dos ganhos alcançados, confiando exageradamente em um ciclo econômico que um dia chegaria ao fim. Faltou ao PT, assim como a todos os partidos que pensam apenas até a próxima eleição, a visão de longo prazo tida pela monarquia portuguesa que garantiu ao país o pioneirismo nas navegações exploratórias, como aponta Furtado no texto. No sentido de dar fim a dependência brasileira, atacou-se a dívida externa e buscou-se acumular reservas para segurar a instabilidade cambial em momentos de crise. Foram medidas importantes, mas não completamente suficientes. Durante a crise mantivemos certo grau de soberania, e não necessitamos recorrer a órgão como FMI, como sempre ocorreu em crises passadas. Porém a quebra da dependência é ainda algo discutível, pois somos agora dependentes de empresas transnacionais e investidores estrangeiros que ao primeiro sinal de dificuldade foge com seu capital para seu país de origem, acentuando as dificuldades já vividas por nossa economia.

Assim como em 1984 os motivos da crise eram desequilíbrios externos, assim é agora. Porém conforme questionado por Furtado naquela época, o que pretendíamos com as políticas adotadas? A crise internacional funcionou apenas como motor de antecipação de problemas estruturais criados (ou deixados de lado) por nós mesmos. Ofuscados com a ilusão de termos uma economia forte embalada pelo ciclo de ascensão das commodities e da ampla liquidez internacional, não enxergamos as fragilidades que poderiam pôr em risco todos os avanços conquistados.

Por isso repito Furtado “temos o dever de nos interrogar sobre a natureza dos problemas que afligem nosso povo despindo-nos das posições doutrinárias correntes que assimilam desenvolvimento e crescimento econômico”. Por isso é tão importante, antes de mais nada, nos definirmos: “que somos?”. Quem somos? O que queremos ser? Onde queremos chegar? Somente após nos definirmos e entendermos nossos problemas estruturais é que conseguiremos de fato pensar em vias de desenvolvimento próprias para a nossa situação, pensando o “desenvolvimento a partir de uma visualização dos fins substantivos que devemos alcançar e não da lógica dos meios que nos é imposta do exterior”.

Por isso a pergunta feita por Furtado tantos anos atrás ainda é tão atual para o Brasil, e precisa ser rapidamente respondida. Afinal: “que somos?”.

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