A que ponto chegou a intolerância?

Enfim as férias, e isso significa basicamente curtir meu filho e ler. Para leitura comecei “A Imortalidade” do grande Milan Kundera. É uma reedição do livro, em capa dura. Fiquei sabendo com a Companhia das Letras iria fazer isso com todos os livros dele, porém até agora, e até onde eu sei, esse é apenas o segundo. Estou ainda no começo, e espero poder falar um pouco dele numa resenha em breve. Porém me detive em um trecho do livro, e vim aqui escrever essas breves linhas com umas poucas reflexões que humildemente andei fazendo nos últimos dias.

De repente, assustada com esse ódio, pensou: o mundo atingiu uma fronteira, quando ele a ultrapassar, tudo pode virar loucura: as pessoas andarão pelas ruas segurando um miosótis, ou então atirarão uns nos outros na frente de todos. E bastará muito pouca coisa, uma gota d’agua fará o copo transbordar (…)

O que Kundera escreveu, na França, em 1990, ouso dizer, é o que passamos no Brasil hoje. Atingimos aqui um limite, e a intolerância passa a conviver com muitos. A intolerância tornou-se parte de uma sociedade que está aos poucos se tornando digna de pena. A falta de empatia, de solidariedade, de amizade e de amor me parece ter chegado ao máximo permitido. O egoísmo aparenta estar cada dia mais latente na sociedade.

Chegamos a tal ponto que vemos pessoas, que até então você considerava esclarecida, agirem como tiranos que há décadas habitaram esse mundo. A máxima “Não gostou do que falei não comenta” torna-se lugar comum para tais pessoas. Está proibido discordar. Está proíbo questionar. Alguns chegam a excluir os comentários discordantes, talvez pela vergonha que se sente por se perceber tão fútil.

Está proibido questionar e discordar, talvez, porque isso faz pensar. E hoje em dia percebe-se uma falta de vontade de se pensar. Percebe-se uma ânsia por modelos e pensamentos pré-estabelecidos. E os que pensam por conta própria estão largados à própria sorte, contra a fúria dos acomodados. Contra a intolerância ao pensamento autônomo. Que o diga Zeca Camargo, que cometeu o enorme erro de dar sua opinião.

A gota d’agua que vai transbordar o copo já caiu. E a intolerância transbordou de tal modo que hoje a presidenta não é incompetente apenas, mas vagabunda, vadia, etc. Não se ataca mais as aptidões de cada pessoa, mas a pessoa em si. Guido Mantega, o maior capacho da história desse país não pode mais nem ir ao hospital sem ser hostilizado. Jô Soares, por ter feito aquilo se espera do programa dele, despertou o desejo pela sua morte de algumas pessoas. E essa intolerância toda vem de pessoas estudadas, que deveriam saber a perigo que é flertar com tal sentimento.

Não quero aqui defender os acima citados. Não os defendo de seus erros. Quero apenas despertar o pensamento geral para algo que, ao menos para mim, parece muito perigoso. Vivemos algo semelhante em 1964, e demos início ao período mais obscuro da história brasileira. Queremos mesmo reviver isso? Não quero aqui também discutir quem deu início a isso, se foi a impressa golpista ou os petralhas. Sejamos práticos. O fato é que o processo já se iniciou, e se não for repensado urgentemente descambará apenas em um lugar. E não podemos deixar para nos arrepender de algo que ainda podemos remediar.

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