A lógica conservadora religiosa e a homossexualidade

Outro dia me meti em uma discussão com um grande amigo e um grande sociólogo (se não me engano) sobre o beijo gay, que passaria a ter a mesma classificação indicativa que um beijo heterossexual. Ou seja, poderia passar na televisão sem maiores problemas. Olhando a função cultural da televisão de reproduzir características da sociedade em que está inserida e assim complementar o filtro cultural de cada cidadão¹, eles alegaram que essa tratativa do beijo gay iria banalizar o assunto, tornando-o algo normal, o que traria sérias dificuldades aos pais na criação dos seus filhos, pois como iriam explicar para eles que pessoas do mesmo se beijando não é algo normal?

Um dos alicerces desse argumento, o que o difere de puro preconceito, está na aceitação do conceito religioso e tradicional do que seria a família. Uma família é composta por um homem, uma mulher e seus filhos, geralmente frutos da relação sexual entre os pais. Tratar o beijo gay como algo normal seria tratar a homossexualidade como algo normal, e assim desconstruir a família tradicional cristã. Aparentemente um argumento de total preconceito, porém esse argumento é movido antes de qualquer coisa pela fé. E só poderíamos entender a extensão dele olhando-o pelos olhos da fé, onde veríamos que ele não é preconceituoso, mas apenas irracional, pois a fé é irracional.

O argumento da desconstrução da família visto pelo ângulo da irracionalidade o eximiria de qualquer preconceito. Porém discordo dessa linha de pensamento, pois além de irracional ele é seletivo, e quando escolhemos contra o que iremos aplicar nossa irracionalidade o fazemos, mesmo que inconscientemente, baseados em conceitos pré-estabelecidos e deturpados. Mas porque digo que é uma irracionalidade seletiva? Pelo simples fato que existem várias formas de desconstruir a família tradicional, porém é apenas o caminho da sexualidade que é apontado e “denunciado”.

No capítulo 20 do livro de Êxodo, Deus da à Moises os mandamentos que regeriam a vida cristã. Não vou transcrever todos aqui, mas apenas um que acho central para minha argumentação.

Não adulterarás – Êxodo 20:14

Teria forma mais horrenda de desconstrução da família tradicional cristã do que pecar contra os 10 mandamentos? Mandamentos esses que foram ditados pelo próprio Deus, para que fossem seguidos por seus fiéis. Pois bem, o que seria essa nova minissérie da Globo (Felizes para sempre?) se não um culto velado ao adultério? Porque os conservadores retrógrados representados por Marco Feliciano e Silas Malafaia não urraram contra essa minissérie ainda? E se por ventura vieram a urrar, será contra os adultérios ou contra os beijos entre duas mulheres? E se fosse beijo entre dois homens será que a reação seria mais rápida?

O preconceito velado dos conservadores religiosos, que é escondido atrás da irracionalidade da fé, fica sempre exposto quando eles são confrontados com situações em que há a desconstrução da família, e mesmo assim ainda há o silêncio ensurdecedor de seus defensores. Alguns podem alegar que nada é dito por que passa em horário deverás tarde. Mas gosto sempre de fazer um paralelo do tipo “e se fosse uma série masculina e gay?”. Creio que nesse caso, nem mesmo o horário iria salvar a Globo de ser acusada de querer banalizar a homossexualidade, de querer desconstruir a família cristã sagrada.

A emissora, por incrível que pareça, presta um serviço público com essa minissérie². Primeiro com as denuncias de como funciona os esquemas de corrupção no Governo, qual o papel da empresa privada nesse processo, e nos leva a discutir o financiamento privado de campanhas. Segundo porque desnuda a hipocrisia do argumento anti-homossexual baseado em preceitos religiosos. Mostra como ele é seletivo e injusto e como é, de qualquer forma, preconceituoso.

E ainda nos lança novos questionamento sobre o rumo que a nossa sociedade está tomando. Desde quando estamos nos tornando uma sociedade onde o adultério é algo normal, porém um ato de amor, mesmo que entre pessoas do mesmo sexo, deve ser tratado com tamanho ódio, com tamanho asco? É nesse tipo de sociedade que queremos viver ou que queremos que nossos filhos vivam?

Não sei vocês, mas a sociedade que eu imagino é uma sociedade baseada no sentido mais puro da tríade “liberdade, igualdade e fraternidade”, com ênfase especial para IGUALDADE e FRATERNIDADE. E acredito que apenas assim conseguiremos atingir o tão sonhado desenvolvimento econômico, pois não há como se desenvolver economicamente mantendo estruturas sociais tão arcaicas.

Notas:

¹ Veja bem que foi usado o termo “complemento cultural”, o que não significa que a televisão é o único meio. Porém a televisão retrata a sociedade em que ela está inserida, podendo tirar disso boas lições. Mas não deve ser usada como único meio de cultura, pois os livros, o cinema, o teatro, a música, também são complementos válidos e geralmente muito superiores.

² Não pretendo fazer da Globo uma santa na luta de causas sociais. Globo é Globo, e cada um precisa tirar suas próprias conclusões baseado em suas próprias experiências.

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