A Luta com a Aranha

Tenho que confessar uma coisa. Quando se trata de bichos, tenho mais medo do que gostaria. A começar pelo bicho ser humano, que é sem dúvidas o que me dá mais medo. Tem uma capacidade extraordinária para pensar e inventa aparelhos de destruição em massa. Inventa formas de acabar com milhares de vidas em uma só vez. E como se não bastasse, não pensa sobre o significado disso e leva o ato até o final. Bicho estranho demais. Enquanto os irracionais defendem seus iguais, o ser humano racional mata seus iguais, pelos motivos mais torpes. Bicho estranho esse!

Outro bicho que me causa arrepios é a aranha. Se eu tenho medo de um bicho com duas patas, imagina um com 8. Assisti uma vez aquele filme horroroso chamado Aracnofobia, fiquei uns dias sem dormir direito. Eis que hoje, enquanto estava no trabalho, olho para minha mesa e uma aranha aparece. Não era grande, mas quando você não gosta de algo, pouco importa o tamanho. A presença dela já tira sua paz. Mas decidir fazer um acordo mental com ela, eu a deixaria em paz e ela iria embora da minha mesa. Claro que não funcionou. Ela decidiu fazer um tour, então decidi ignorar, como se isso fosse irrita-la e assim ela tomasse o caminho da roça. Não funcionou e ela veio pra cima de mim.

Não sei se você já leu Dom Quixote, mas se não leu, leia! Vale cada palavra. Tem uma parte emblemática do livro em que o nosso herói luta bravamente contra um moinho de vento, imaginando ser um gigante. Um trecho cheio de significados e reflexões. Eu me sentia como Dom Quixote quando a aranha veio para cima de mim. Saquei minha espada (uma régua de 30cm das mais vagabunda) e comecei uma luta brava e heroica contra o monstro peçonhento. Mas tenho que admitir que a danada era boa esgrimista. A cada estocada minha, ela se desviava com pulos suaves, como se dançasse balet de um lado a outro, desviando de meus golpes fatais. Sapateava com seus 8 pés de um lado a outro, rindo da minha cara, se pendurando aqui e acolá com sua teia. Até que BLAM! Eu peguei ela.

Volto ao meu trabalho e passados poucos minutos de minha suada vitória, eis que surge na parede ela, a Dona Aranha, teimosa e desobediente. Então me permito um riso. Ela ganhou. Torno a rir, com mais intensidade. Percebo a cena como um todo, a situação jocosa em que me encontro. Um marmanjo lutando contra uma aranha. Ela passeia pelo meu monitor, é a volta olímpica da vitória. Sobe na parece a vai embora, some da minha vista. Veio apenas para me fazer de besta, ou para lembrar como a vida é. Um emaranhado de batalhas cotidianas que cada um tem de enfrentar. Algumas mais graves e urgente, outras mais banais e insignificantes. Mas todas partilham de sentido comum. De uma forma ou de outra são lutas que valem a pena serem lutadas, sejam elas grandes ou pequenas, assim como Dom Quixote contra o moinho de vento. São as nossas lutas, são elas que dão sentido a nossa vida. É por elas que estamos aqui.

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