Je suis Charlie!

Je suis Charlie! (Eu sou Charlie!) Essa frase contagiou o mundo, principalmente nas primeiras horas após o atentado terrorista ao semanário “Charlie Hebdo”. Foi uma singela manifestação de apoio aos sobreviventes e familiares dos mortos. Ouso dizer que é também uma forma de representar uma defesa à liberdade de expressão, que estão dizendo que foi duramente atacada com o atentado. Uma frase que contagiou o mundo todo, graças ao peso sentimental e a sensação de absurdo que o atentado trouxe à tona.

Porém passados alguns dias do atentado, após mentes mais frescas começarem a pensar sem a nuvem do sentimentalismo obscurecer suas reflexões e até após uma breve pesquisa sobre as capas do semanário, começaram a pipocar, ao menos aqui no Brasil, uma adaptação ao “Je suis Charlie!”, a frase da vez é “Je ne suis pas Charlie!” que quer dizer “Eu não sou Charlie!”. Leonardo Boff compartilhou um texto (aqui) que, creio eu, externou o sentimento de todos que não são Charlie. Não é um voto de apoio ao atentado terrorista, de forma alguma. Mas é sim uma bela reflexão sobre os limites ultrapassados pelo semanário sob o pretexto controverso da liberdade de expressão.

Convido você que está lendo esse texto a um breve exercício. Imagine Deus. Faça uma breve caricatura dele em sua mente, com sua barba branca ornando com suas vestes quase transparentes de tão brancas. Agora imagine Jesus, seu filho. Ele não está na cruz, mas está com um buraco em cada mão e em cada pé, está com a coroa de espinhos. Agora imagine Deus de quatro, Jesus enrabando ele por trás e um triângulo (creio eu ser o símbolo do homossexualismo) enfiado no cú de Jesus. Para o “Charlie Hebdo” essa é uma representação da santíssima trindade, uma crítica ao conservadorismo cristão e um apoio ao casamento gay. Chocou-se com a descrição? Deixo aqui o link para você se chocar ainda mais com a imagem.

Quem me conhece sabe o quão a favor das causas LGBT eu sou. Mas discordo em gênero número e grau com a forma que o semanário escolheu para expressar sua posição. Porém achei até engraçadinha a forma como eles retrataram Maomé. Sabe o porquê? Porque eu cresci em meio ao catolicismo, sou de uma família católica. Mais que isso, cresci em meio ao cristianismo, estudando em escolas protestantes. Isso faz parte da minha vida e até de minha formação. Fui de certa forma habituado e enxergar em Deus uma santidade que não se deve brincar. Passado os anos cheguei a conclusão que deve-se brincar sim com Deus, mas jamais ofende-lo. E então aparece um semanário que faz justamente isso. Cria uma completa ofensa ao cristianismo como um todo. Exatamente da mesma forma como eles fizeram com o Islã. Segundo normas seculares dessa religião, Maomé não deve de forma alguma ser retratado. Além de retratá-lo, o “Charlie Hebdo” o insultou, ofendeu.

Isso não cria de forma alguma pretexto para o ocorrido. Como disse no post anterior, um conjunto de alucinados doentes usaram isso como pretexto, deturpando ensinamentos religiosos para poder consumar um crime contra pessoas que eles julgavam desviadas do caminho correto. Mas o ato em si não é de forma alguma motivo para nenhum atentado terrorista. O que quero chamar a atenção aqui é a forma ofensiva de humor que o “Charlie Hebdo” escolheu para externar suas opiniões. Travestiram essas ofensas como liberdade de expressão, e nos fazem engolir isso dia-a-dia como se fosse algo normal e correto. O mesmo acontece com humoristas como Danilo Gentili e Rafinha Bastos.

Então eu pergunto, quais são os limites dessa liberdade de expressão? Ela é ilimitada? Sendo ela ilimitada, como fazer quando alguém se sente ofendido por algo proferido por essas pessoas protegidas por essa tal liberdade? Indo um pouco mais longe, como definimos se algo é ou não ofensivo, se a ofensa é tão intima e pessoal quanto uma digital?

Acho que a liberdade de expressão tem apenas um limite, que é o do respeito. Devemos ser livres para dizer o que quisermos a hora que quisermos. Mas não podemos faltar com respeito com o próximo. Em nome da nossa liberdade de expressão, não podemos deixar outrem com vergonha, intimidado ou humilhado. Eu não devo chamar um negro de macaco, mas não é apenas porque a lei diz que isso é proibido, mas porque isso é acima de tudo humilhante para o receptor da mensagem.

Saber o que ofende ou não alguém pode ser complicado, afinal a ofensa é algo íntimo, alegarão alguns. Realmente não é algo fácil, mas não é fácil porque o ser humano deixou de praticar a empatia para praticar o egoísmo. O indivíduo se acha o centro do universo, e por isso acha que pode fazer coisas que na realidade não pode. Se sairmos um pouco de nossa redoma individualista e passarmos a olhar o próximo com afeto, iremos conseguir perceber que certas coisas podem ser ofensivas a certas pessoas.  E assim conseguiremos praticar a empatia e o respeito, algo que está ausente na sociedade moderna.

Eu continuo sendo Charlie. Sou Charlie em protesto ao que ocorreu, em protesto ao radicalismo doente, em condolência as famílias dos 12 mortos. Je suis Charlie! Mas jamais concordarei com o estilo agressivo e ofensivo de humor adotado pelo semanário.

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