Entre o radicalismo e a tolerância

O ataque ao jornal francês “Charlie Hebdo” foi, sem dúvidas, estarrecedor e uma clara demonstração dos efeitos nocivos que o radicalismo e mentes doentias podem causar em uma sociedade. O radicalismo em qualquer área se torna um câncer, pois faz pessoas tomarem determinadas atitudes unicamente por intolerância. Já vi pessoas desavisadas (inclusive esse que vos escreve) atribuir à religião a origem dos maiores radicais da história. Mas analisando melhor os fatos, o radical transforma qualquer ideal em algo que valha a pena matar ou morrer, e esse sim é o principal problema. Temos maiores exemplos na religião porque esse é um tema que mexe com os sentimentos mais íntimos de uma pessoa, pois a fé é cega e não se apresenta fatos e dados para comprovação de nada, apenas a crença de seus fiéis. E quando você acredita cegamente em algo, você é levado aos extremos por aquilo que acredito, principalmente se você possuir uma mente doentia.

A mesma lógica que quero demonstrar se aplica ao nazismo, por exemplo. Hitler era um doente que acreditava cegamente em uma raça pura, e que para chegar a esse objetivo era preciso exterminar todos os Judeus, e no caminho todos os gays, negros, etc. Mais uma vez a fé cega e radical, de uma mente doentia, leva a resultados extremados e deploráveis. O mesmo se aplica a Rússia de Stalin, ao Chile do Pinochet e até a Ditadura Brasileira.

As cruzadas e a Inquisição foram episódios vergonhosos na história do catolicismo, mas não podemos culpar a religião como um todo por essas atrocidades. A inquisição surgiu da mente doentia do Papa Gregório IX e as Cruzadas do Papa Urbano II. Não consigo imaginar, por exemplo, o Papa Francisco ou o João Paulo II ordenando qualquer ação semelhante, e eles nasceram e foram criados sob as mesmas leis e regras da mesma Igreja.

Como citei, a religião é de fato mais suscetível a sofrer apropriação dos ideais por algum maníaco para causas obscuras, mas isso não a torna de forma alguma cúmplice. Sendo o islamismo uma religião, compartilha desse mesmo princípio e por isso acho muito errado atribuir os ataques terroristas, cometidos por organizações como a Al-Qaeda, ao extremismo religioso do Islã. Existem terroristas mulçumanos, mas nem todo mulçumano é terrorista. Não foi a religião que fez com que os atiradores entrassem no “Charlie Hebdo”. Supondo que eles são da Al-Qaeda, o que impulsionou eles a executarem a ação terrorista foi, além de suas mentes doentias, a deturpação de ensinamentos religiosos, que fizeram com que eles julgassem que supostas ofensas a Maomé e a líderes religiosos devessem ser punidas com atos extremados. A religião foi usada como instrumento para que mentes doentias possam perpetrar crimes contra pessoas que discordam de seus pontos de vista. Isso não torna os terroristas menos culpados, pois a escolha de matar é sempre do ser humano, até nas piores situações. Mas essa culpa deve ser compartilhada entre os que executaram o ato e com toda a rede Al-Qaeda.

Atribuir tamanho peso à religião é tirar o foco do problema principal, que é a doença do extremismo que se prolifera pelas sociedades. Como disse, ideias radicais e extremas podem aparecer em qualquer assunto da sociedade, por isso que é tão mais importante tratar o problema do radicalismo ao invés de considerá-lo apenas um problema religioso. No Brasil já temos exemplos do radicalismo invadindo a política e os esportes. Até quando iremos usar a máxima “política, religião e futebol não se discute”, apenas para mascararmos o problema e não confrontá-lo de frente? Até quando iremos fechar os olhos para o problema da homofobia, que no limite é a intolerância a um pensamento contrário? Ou ao racismo, que é a intolerância a uma cor de pele diferente da sua.

A religião é uma manifestação cultural e, por isso, existem tantas com dogmas tão distintos. Não podemos querer acabar com uma religião, ou com todas, com o pretexto de assim acabar com o conservadorismo, o radicalismo e todos os outros “ismos” negativos. Precisamos assumir que esse é um problema social e passarmos a trabalhar na sociedade o amor ao próximo, tolerância, respeito às ideias contraditórias e por ai vai. Esses itens são, inclusive, ensinados por muitas religiões, se olharmos diretamente na fonte, sem as interpretações de Padres, Pastores, Rabinos, etc.

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